8º Episódio
Por Ruben Gomes Quinta, 11 Março 2010 19:59
Maria parou de escrever. Rasgou o que escrevera, com brutidão, levantou-se da cadeira do seu quarto, junto à escrivaninha, onde escrevera o poema, e atirou-se para a sua cama. Chorou.
- Como é que eu vou conseguir viver sem ti, meu amor? Como? Eu não quero que o mar te leve, tal como fez com o meu pai e o meu irmão! Não quero que vás! Não quero! Não! Não!
Amanheceu. A natureza estava de acordo com o estado de espírito de Maria: Chovia e os céus estavam cobertos por lençóis acinzentados. O vento era forte e o mar encontrava-se revoltado, já que Maria também se encontrava revoltada.
Quando a jovem entregou o pequeno-almoço a Dafne, a mulher não tocara no assunto relativo a João, pois sabia que quanto mais a sua filha se recordasse desse assunto, mais se torturava.
- A maçã está muito boa… -disse a senhora – Compraste-a na mercearia “Casa das frutas”? Eu costumava lá ir quando podia andar.
- Essa mercearia fechou há um ano, mãe. – Esclareceu Maria, cabisbaixa.
- Ah, não fazia ideia.
Apenas trocaram palavras sobre assuntos sem grande importância.
A jovem, depois do almoço, foi comprar um jornal ao quiosque mais próximo de sua casa e, ao chegar a casa, abriu esse mesmo jornal e folheou as páginas, ignorando as notícias do dia, até chegar à parte das ofertas de emprego. Os seus olhos estacaram quando avistaram um determinado anúncio.
- “Empregada de limpeza”? E o sítio é perto de minha casa! Vou ligar.
A jovem pegou no telefone que se encontrava no corredor, próximo da porta principal e marcou o número que estava no jornal. Encostou o auscultador ao ouvido e aguardou.
- Estou? Bom-dia! O meu nome é Maria d’Água e encontro-me a ligar-lhe devido ao anúncio do jornal. Gostaria de trabalhar como empregada de limpeza… A sério?! Uma entrevista de emprego, amanhã?! … Claro que posso! Muito obrigada! Muito obrigada! Então até amanhã, às três horas da tarde! … Com licença.
Desligou o telefone. Esboçou o seu maior sorriso e correu ao quarto da mãe.
- Mãe! Mãe! Haja alguma coisa que me alegre!
Dafne ficou feliz só por notar que a sua filha tinha um brilho nos olhos imensamente contagiante.
- Diz, filha!
- Vou a uma entrevista de emprego, amanhã, como empregada de limpeza! – Exclamou Maria, no auge da sua felicidade. – Sei que o trabalho não é grande coisa, mas é trabalho!
- É um trabalho digno e isso basta, minha querida. – Proferiu Dafne, colhendo a mão direita da filha, que se chegava para junto da sua progenitora – Só espero que consigas este trabalho, minha querida. Sinto-te sempre tão desesperada!
- É claro que estou desesperada, mãe! Há seis meses que não tenho trabalho! O mês passado até nos cortaram a luz, devido ao facto de não termos dinheiro suficiente para pagarmos as contas! Nem sei como ainda temos dinheiro para comprar comida! O dinheiro de debaixo do colchão já não é mais a nossa salvação…
- Eu sei tudo isso, minha querida. Mas quando disse que te via sempre desesperada, referia-me ao desespero em relação à vida em geral! Conseguires este emprego vai fazer com que fiques mais aliviada e, logo, menos cabisbaixa. Sinto os meus olhos marejados de lágrimas quando não te vejo com a cabeça erguida, decidida a encarar a vida de frente, minha filha.
- Não quero que chores por mim, mãe.
- Se não chorar por ti, então chorarei por quem? Já chorei tudo o que tinha a chorar pelo teu pai e pelo teu irmão. E acredita que a morte deles me doeu bastante. Senti uma parte do meu coração a ser rasgada pela dor de alma.
- Mas a tua vida não pode girar à volta do meu mundo! Eu não sou o centro de tudo, mãe! – Deu a conhecer o seu ponto de vista, Maria.
- A minha vida, filha, és tu. – Disse Dafne. E com estas palavras, as duas abraçaram-se ternamente. Dafne passou a mão nos cabelos loiros da filha, tentando acalmá-la, pois Maria chorava naquele momento que dera azo a emoções fortes.
- A partida do João consternou-me, prosternou-me, matou-me por dentro.
- Tudo o que está a acontecer enluta os teus sentimentos, não é, minha filha?
- Sim... – Disse Maria num soluço, ainda abraçada à mãe.
- É por isso que não és feliz? – Segredou Dafne aos ouvidos da amada filha.
Maria não respondeu. Apenas continuou abraçando a mãe que também a abraçava.
O tempo passou.
Maria estava no quarto, olhando a rua através do fino vidro da janela, quando o velho telemóvel da jovem tocou. Nisto, a jovem, que estava absorta nos seus pensamentos, retornou ao duro mundo real e atendeu o aparelho telefónico.
- Estou? Olá, Catarina! Está tudo bem, amiga? Há muito tempo que não me telefonavas! Então, esse curso de direito, como está a correr?
Do outro lado da linha telefónica a amiga respondia.
- A sério?! Já terminaste? Que bom! Então, agora, vais regressar, ou ainda vais ficar uns tempos em Coimbra? … Já cá estás?! … Se me quero encontrar contigo? Claro que sim! Onde nos encontramos? … Na esplanada? Está bem. Combinado! Até já, então.
Maria desligou o telemóvel, feliz, pegou na sua mala que estava sobre a cama e foi-se embora. Mas antes falou com a sua mãe.
- Mãe, a Catarina já voltou!
- A sério, Maria? Que bom! Então, ela já terminou a licenciatura?
- Sim! Vou encontrar-me com ela agora!
- Fazes bem, filha, precisas de te distrair!
- Até logo!
- Até logo!
Maria cerrou a porta de entrada da casinha de pescadores e dirigiu-se para uma esplanada onde a sua amiga Catarina a estava pacientemente aguardando. Estava sentada numa cadeira branca de plástico, desfrutando da brisa marítima que dançava com os seus cabelos acastanhados, bem lisos. Era esbelta, alta, de olhos cor de oliva e encontrava-se trajada com um vestido verde garrido e como adereço usava um colar de bolas pretas. Ao ver Maria, a jovem de 25 anos levantou-se da cadeira, alegremente, e dirigiu-se, a passo rápido, para a amiga. Abraçaram-se.
- Maria! Há quanto tempo, amiga!
Cruzaram os olhares.
- Estás tão bonita, Catarina! – Analisou-a Maria.
- Tu é que estás bonita! – Retorquiu Catarina. – Anda, vamo-nos sentar.
Maria anuiu e as duas sentaram-se em duas cadeiras de plástico, frente-a-frente.
- Conta coisas! – Disse Maria, animada.
- Então, por onde é que posso começar? – Disse Catarina. – Não há muito para dizer… Partilhei a casa com uma colega, frequentei a universidade de Coimbra… Fui praxada, claro! E fui a muitas festas! Fiz muitas directas para os exames! Enfim… E agora é a tua vez! Conta-me tudo! O que tens feito?
- A minha vida não é tão positiva como a tua... – Disse secamente Maria.
Catarina pegou nas mãos da amiga.
- A tua vida só não é positiva porque tu não és positiva!
- Eu só não sou positiva porque o destino não quis.
- Finta-o! Ataca!
- Depois o contra-ataque dele vai ser pior!
- Nunca vais saber se não arriscares! – Exclamou Catarina – Mudando de conversa… O João e a Marinha, como estão?
- Em consonância. – Respondeu Maria, desanimada – Agora, mais do que nunca.
- Porquê esse ar tão cabisbaixo?
- Porque o João é a única coisa que me faz feliz… E agora, o mar chamou-o! – Respondeu Maria, não conseguindo esconder as lágrimas que lhe assaltavam os olhos.
- Maria! O mar só é um monstro na tua cabeça! O mesmo aconteceu outrora com o tal “Gigante Adamastor”!
Maria não conseguia falar. Apenas soluçava.
-Chora à vontade! Desde que me prometas que vais ultrapassar este trauma!
- Desculpa.
Catarina, continuando a ter nas suas as mãos de Maria, continuou dissertando.
- Durante este tempo que estive fora, pesquisei muitas coisas relacionadas com o mar e eu tenho quase a certeza de que já sei qual é o teu problema.
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